BRASIL POLÍCIA

Perícia diz que Isabelle se jogou de prédio; namorado é investigado por indução ao suicídio


Laudos apontam que estudante de 22 anos se lançou do rooftop onde morava; polícia também apura violência psicológica e possível obstrução da investigação

A Perícia Forense do Ceará (Pefoce) concluiu que Isabelle Caracristi, de 22 anos, se lançou do rooftop do prédio onde morava, no bairro Aldeota, em Fortaleza. A conclusão foi apresentada nesta quarta-feira (23), durante uma coletiva conjunta da Polícia Civil e da Perícia Forense sobre a investigação da morte da estudante.

Segundo os peritos, a análise dos vestígios indica uma “precipitação voluntária”, termo técnico utilizado para descrever uma queda provocada pela própria vítima. A perícia descartou, com base nos elementos analisados, a hipótese de que Isabelle tenha sido arremessada ou empurrada por outra pessoa.

A conclusão, no entanto, não encerra a investigação sobre as circunstâncias da morte. O namorado da estudante, João Munhoz Neto, de 34 anos, permanece preso preventivamente e é investigado por possível violência psicológica, induzimento ou instigação ao suicídio e eventual obstrução da investigação.

Perícia aponta queda vertical

De acordo com a Pefoce, os cálculos realizados pelos peritos indicam que Isabelle percorreu uma trajetória de queda predominantemente vertical, com duração aproximada de três segundos até o impacto contra o solo.

A análise do apartamento onde ela morava com João não identificou sinais de arrombamento, desordem ou luta corporal. Também não foram encontradas, no corpo da estudante, lesões de defesa, sinais de esganadura ou marcas de agressões físicas anteriores à queda.

Na cortina de vidro do apartamento, foram encontradas impressões digitais atribuídas exclusivamente a João.

A perícia também analisou quase 700 arquivos de vídeo produzidos pelas câmeras de segurança do condomínio. Segundo os investigadores, o material foi considerado íntegro e não apresentou sinais de adulteração.

O ponto exato de onde Isabelle caiu, porém, não era monitorado por câmeras. O rooftop e as escadas de emergência do edifício não tinham equipamentos de videomonitoramento.

Isabelle ficou 1h28 no rooftop

A cronologia apresentada pela polícia mostra que Isabelle entrou sozinha no elevador às 19h12 e seguiu para o rooftop, no 23º andar.

A estimativa é de que a morte tenha ocorrido às 20h40.

Isso significa que a estudante permaneceu aproximadamente uma hora e 28 minutos na cobertura antes da queda.

Segundo a Polícia Civil, registros indicam que Isabelle permaneceu conectada ao celular e trocou mensagens durante esse intervalo. O conteúdo das conversas agora é analisado pelos investigadores.

O celular da estudante estava no bolso dela no momento da queda. O aparelho sofreu danos e fragmentação, mas foi recolhido e encaminhado para perícia, com preservação da cadeia de custódia.

Exames não apontaram álcool ou drogas

O exame necroscópico apontou politraumatismo como causa da morte.

Segundo a Pefoce, a lesão que provocou a amputação da perna direita da estudante também foi consequência do impacto durante a queda, quando o corpo atingiu o gradil da estrutura.

Os exames toxicológicos e alcoólicos deram resultado negativo para álcool e drogas ilícitas.

Foi identificado apenas carisoprodol, um relaxante muscular que, segundo a família, já fazia parte do uso prévio da estudante.

A perícia também confirmou que Isabelle não estava grávida.

Por que o namorado continua preso?

Apesar da conclusão pericial sobre a dinâmica da queda, a Polícia Civil afirma que a investigação ainda precisa esclarecer o que aconteceu antes da morte e se João teve participação nos acontecimentos que antecederam a queda.

Segundo os investigadores, depoimentos apontam para um relacionamento marcado por controle, isolamento e possíveis episódios de violência psicológica.

A polícia também apura informações relacionadas à vida financeira do casal, incluindo o uso de cartões da estudante e possíveis divergências entre os dois.

A investigação considera a possibilidade de enquadramento das condutas em crimes como violência psicológica contra a mulher e induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio, previsto no artigo 122 do Código Penal.

Condutas depois da morte também são investigadas

A Polícia Civil afirma que a prisão preventiva de João também foi fundamentada em comportamentos considerados relevantes para a investigação.

Segundo os investigadores, no dia seguinte à morte, ele teria retornado ao condomínio para procurar o celular de Isabelle nas áreas externas próximas ao local da queda.

A polícia também afirma que testemunhas relataram que João teria orientado a portaria a impedir a entrada de familiares da estudante no prédio.

Outro ponto investigado é o que aconteceu com o apartamento depois da morte. Segundo a Polícia Civil, o imóvel foi limpo por uma pessoa contratada e posteriormente colocado à venda.

Ainda de acordo com a polícia, João recolheu seus pertences em malas, desativou redes sociais e deixou de fornecer pontos de contato aos investigadores.

O celular dele foi apreendido e passa por análise. Outros aparelhos eletrônicos também são periciados.

Mãe só soube da morte no dia seguinte

A mãe de Isabelle, Isorlanda Caracristi, afirmou que não foi avisada sobre a morte da filha na noite da ocorrência.

Segundo o relato dela, como não conseguia falar com Isabelle, foi até o condomínio no dia seguinte e descobriu que a filha havia morrido.

A família também afirma que Isabelle havia enviado uma mensagem para a mãe pouco antes de subir ao rooftop. Às 19h, aproximadamente, a jovem escreveu “mãe, te amo”.

Cerca de uma hora e 40 minutos depois, segundo a estimativa da perícia, Isabelle morreu.

O relato da família sobre o relacionamento também integra as linhas de investigação da Polícia Civil.

Sete pessoas já prestaram depoimento

Até o momento, sete pessoas prestaram depoimento no inquérito, entre elas João.

A investigação é conduzida por uma força-tarefa formada por equipes da 2ª Delegacia de Polícia Civil da Capital, da Delegacia de Defesa da Mulher e do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa.

O trabalho é realizado sob a perspectiva de gênero.

A polícia também analisa celulares, dispositivos eletrônicos, mensagens e imagens de câmeras de segurança. Novos depoimentos ainda estão previstos.

Ao todo, a Pefoce informou que já concluiu 11 laudos periciais relacionados ao caso.

A conclusão de que Isabelle se lançou do rooftop responde, segundo a perícia, à dinâmica da queda. Agora, a investigação policial busca esclarecer o que aconteceu durante o período em que a jovem esteve sozinha na cobertura e, principalmente, se houve influência, indução ou violência psicológica que tenha contribuído para a decisão de tirar a própria vida.

O caso tramita sob segredo de Justiça.

Via CNN Brasil


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