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Duas versões: nenhuma verdade


Em meio à queda de Vargas, versões oficiais se cruzam, jornais registram contradições e a História revela como os acontecimentos podem mudar de sentido conforme quem os conta

Em 1945, os generais Goes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra resolveram liderar um movimento de oficiais generais da Marinha, Exército e Aeronáutica visando a deposição de Getulio Vargas da presidência da República por não confiarem que ele se manteria isento nas eleições gerais de 2 de dezembro daquele ano, não aplicaria nenhum golpe dentro do golpe de 1937 e conduziria a reconstitucionalização do país.

Exigiram garantias de Vargas nesse sentido, não as obtiveram e impuseram a sua renúncia em fins de outubro daquele ano, sem pestanejar. Deposto à meia-noite, substituído às duas horas da madrugada pelo ministro José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal que obteve garantias dos generais, era hora não só de mudar o ministério, demitir e substituir os interventores federais nos estados, assegurar a continuidade das eleições, mas, também, eleger Dutra para a presidência da República.

Tudo isso foi feito. Funcionando como líder e garantidor do movimento, o general Goes Monteiro era quem falava por todos os oficiais. Para a imprensa, ele deu uma versão educada, criteriosa e polida sobre os acontecimentos em uma proclamação à Nação na qual explicitou que “Getulio Vargas em face dos acontecimentos políticos e para evitar maiores dissidências, resolveu, em um ato de grande patriotismo, renunciar, entregando o poder ao ministro José Linhares”. Ou seja, atribuiu ao próprio Vargas a decisão de renunciar, como ato de altruísmo.

Em outro momento, pouco depois, quando deu posse ao novo presidente e ministro Linhares, o general Goes Monteiro declarou que “o governo Vargas já não podia realizar a paz da família brasileira, sendo, por isso, levado a renunciar”. Ou seja, nessa ocasião parece ter descrito os fatos de forma diversa e oposta ao que havia declarado publicamente horas antes: um fato e duas versões pelo mesmo autor, no mesmo dia.

Curioso notar que estas duas versões oficiais dos fatos, partidas da mesma fonte, que era confiável, diretamente envolvida como autor e fiel garantidor da medida político-militar, repita-se, foram noticiadas em Manaus no mesmo “Jornal do Commercio”, e na primeira página da edição de 30 de outubro de 1945. É de se indagar: como o leitor manauense há de ter compreendido o desenrolar desse processo?

Para quem avança nas pesquisas sobre História Política do Brasil, vale ler o livro de autoria de Luiz Vergara editado sob o título de “Eu fui secretário de Vargas”, no qual ele descreve outro cenário para os mesmos acontecimentos, neste caso contados por quem acompanhou de perto e na intimidade tudo que aconteceu naquela ocasião, inclusive a apresentação da minuta da carta-renúncia que um general levou em mãos para Vargas.

A garantia da isenção política dos governantes dos estados precisava ser observada. Para isso, o novo presidente afastou todos os interventores de uma só vez, inclusive o amazonense Álvaro Maia, e nomeou novos interventores, dentre os quais treze juristas, um diplomata, um oficial do Exército, um advogado e presidentes dos tribunais de justiça estaduais, como sucedeu no Amazonas com o desembargador Stanislau Affonso, formando um governo de responsabilidade de magistrados, por assim dizer.

Enquanto isso, na intimidade do governo e diante do risco da influência política de Vargas, caso ele se manifestasse em contraposição a Eurico Gaspar Dutra, o candidato do novo governo, o presidente José Linhares e alguns generais chegaram a cogitar impor exílio temporário a Vargas, mas isso não se confirmou e ele acabou apoiando a campanha de Dutra e estimulando o “queremismo” que o levou de volta ao Palácio do Catete em 1951, de onde sairia morto para mudar os rumos da política brasileira.

Texto: Robério Braga

Via A Critica


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