Ao insinuar fraude na eleição brasileira e, ao mesmo tempo, elogiar Lula, o presidente americano oferece aos Bolsonaro o conforto da solidariedade ideológica, mas deixa claro que ela tem limites quando confrontada com seus interesses
Donald Trump atirou uma pedra contra a eleição brasileira e, quase no mesmo movimento, estendeu a mão a Lula. Disse, há pouco, que o resultado lhe pareceu “terrível”, insinuou, sem provas, que a eleição poderia ter sido fraudada e, em seguida, afirmou gostar do presidente reeleito.
“Eu me dou bem com ele”, disse.
A combinação é reveladora. Há incômodo com o desfecho do pleito, como já era de se esperar, mas também conformismo diante dele. Trump parece disposto a questionar a eleição, não a assumir os custos de uma campanha para revertê-la
Em seus “Versos Íntimos”, o poeta Augusto dos Anjos recomenda expressamente: “apedreja essa mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija”. A diplomacia de Trump embaralha os destinatários do afago e da pedrada. Oferece aos Bolsonaro solidariedade retórica para alimentar a narrativa da injustiça eleitoral, mas preserva os canais com quem sabe que continuará ocupando o Planalto.
A aproximação entre trumpismo e bolsonarismo é real e já produziu pressões diplomáticas e econômicas contra o Brasil. A afinidade, porém, não equivale a compromisso irrestrito. Para Trump, a família Bolsonaro é um ativo político altamente instrumental quando ajuda a ampliar sua influência e constranger adversários. Quando o custo de sustentá-la aumenta, a conta muda.
A derrota de Flávio expõe essa diferença. Trump poderia ter anunciado que não reconheceria o resultado, condicionado a relação bilateral a uma recontagem ou ameaçado represálias. Não o fez, ao menos até o momento. Preferiu a suspeita genérica, acompanhada de uma declaração cordial sobre Lula. É uma fórmula conveniente. Sinaliza lealdade à base ideológica sem amarrar a política externa norte-americana a uma contestação com poucas chances de prosperar.
O gesto não é inofensivo. Ao insinuar fraude sem apresentar evidências, o presidente dos Estados Unidos empresta autoridade à desconfiança nas instituições brasileiras.
Na mesma linha, tampouco há motivo para descartar novas pressões que derivem da ambiguidade. A administração Trump abriga atores empenhados na causa bolsonarista, e a disposição do presidente pode mudar de acordo com sua conveniência. Suas palavras revelam a diferença entre manter uma controvérsia politicamente útil e transformá-la em prioridade de governo.
Há razões materiais para essa cautela. Washington continuará precisando negociar com Brasília sobre comércio, minerais críticos, investimentos, segurança regional e competição com a China. Ao estender a mão ao presidente reeleito, Trump preserva a opção de negociar com quem detém o poder, em vez de apostar tudo na recuperação política de quem o perdeu.
É aí que aparece a assimetria dessa relação. Os Bolsonaro dependem do respaldo de Washington como fonte de pressão. Trump, em contrapartida, dispõe de outros instrumentos para perseguir seus objetivos no Brasil, inclusive no entendimento com Lula. Pode utilizar os aliados ideológicos como alavanca, sem lhes entregar o comando de sua estratégia.
Isso não significa que Lula tenha razões para ver as crises com os Estados Unidos como “página virada”. O mesmo Trump que o elogia hoje pode ameaçá-lo amanhã, como é da natureza da diplomacia transacional que se emprega na era do auto-interesse. Conformar-se com o resultado eleitoral não representa qualquer tipo de convergência por parte de Trump. Significa apenas o reconhecimento de uma realidade com a qual será necessário conviver.
Augusto dos Anjos desconfiava da boca que beija e da mão que afaga. A lição vale para os dois lados. Os Bolsonaro não deveriam confundir solidariedade retórica com disposição de comprar sua briga. Lula tampouco deveria tomar cordialidade como garantia de um futuro bom. Para Trump, o afago e a pedrada não se contradizem. São instrumentos à disposição do mesmo cálculo.
