BRASIL POLÍTICA

Abin: entenda o que levou à demissão do nº 2 da agência

Presidente dá sobrevida ao chefe da agência, no qual diz ter confiança, mas exonera diretor-adjunto, ligado a Bolsonaro

Pressionado por aliados para exonerar toda a cúpula da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), após o escândalo de monitoramente ilegal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu dar sobrevida ao amigo e diretor do órgão, Luiz Fernando Corrêa. O petista, no entanto, exonerou o número 2, o diretor-adjunto Alessandro Moretti. Ele será substituído por Marco Cepik que, atualmente, comanda a Escola de Inteligência da Abin.

A dispensa ocorreu um dia depois da operação da Polícia Federal contra o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). Moretti é ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Outros departamentos da agência devem passar por trocas nos próximos dias.

No relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), a PF destacou que atuais integrantes da cúpula da Abin interferiram e prejudicaram as investigações ao dificultar o acesso a dados. A corporação também afirmou que há um possível “conluio” da gestão anterior com os membros atuais “cujo resultado causou prejuízo para a presente investigação, para os investigados e para a própria instituição”.

Horas antes da demissão, Lula sinalizava que a exoneração de Moretti seria sacramentada. “A gente nunca está seguro. O companheiro que eu indiquei para ser o diretor-geral da Abin é o companheiro que foi o meu diretor-geral da PF entre 2007 e 2010. É uma pessoa que eu tenho muita confiança, e por isso eu o chamei, já que eu não conhecia ninguém dentro da Abin”, afirmou, em entrevista à CBN Recife. “E esse companheiro montou a equipe dele. Dentro dessa equipe tem um cidadão (Moretti), que é o que está sendo acusado, que mantinha relações com o Ramagem”, acrescentou, numa referência a Alexandre Ramagem, diretor da agência na gestão Bolsonaro.

Moretti ocupava o cargo de diretor-adjunto da Abin desde março de 2023. Entre 2021 e 2023, atuou como diretor de Inteligência Policial e de Tecnologia da Informação da Polícia Federal. Ele também foi secretário executivo da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal entre 2019 e 2021, na primeira gestão de Anderson Torres — que foi preso sob acusação de omissão nos atos golpistas de 8 de janeiro.

Segundo a PF, Moretti é suspeito de repassar informações para Ramagem, atual deputado federal pelo PL do Rio de Janeiro, além de participar de um esquema de espionagem ilegal na Abin.

Na entrevista, Lula também cobrou que a PF não faça “show pirotécnico” com suas operações e que não divulge nomes dos investigados sem que haja provas concretas. O petista já criticou, no passado, sua prisão, que teve ampla divulgação.

Resistência

A indicação de Moretti, ainda nos primeiros meses do governo Lula, foi muito criticada por aliados, que identificavam o delegado como um “bolsonarista raiz”, o que dificultou a aprovação de Corrêa na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal.

O presidente do colegiado, Renan Calheiros (MDB-AL), adiou a data para marcar a sabatina da direção da agência, atraso entendido como resistência do governista ao nome de Moretti para o órgão. Com a demora na aprovação da Abin, também atrasou a fila de aprovação de indicados para outras instituições que precisavam de aval do Senado, forçando, em maio de 2023, a aprovação dos nomes da Abin.

Para o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), as investigações deixam claro que Bolsonaro tentou corromper as instituições do Estado até mesmo durante a gestão de Lula.

“Antes, tínhamos desconfianças, mas infelizmente, agora, temos provas de que, mesmo sob o governo do presidente Lula, a família Bolsonaro tenta buscar privilégios dentro das instituições”, disse o parlamentar ao Correio. “Se dependesse de mim, eu exonerava a todos (da atual direção da Abin), mas essa decisão é do presidente.”

Na avaliação dele, “o que está acontecendo agora é a confirmação daquilo que a sociedade já desconfiava”. “É muito bom, nós precisamos dar transparência e luz a esse episódio sombrio do governo Bolsonaro”, emendou.

O deputado Pedro Uczai (PT-SC) afirmou que a operação da PF na casa de Carlos Bolsonaro trouxe à luz a necessidade de se rediscutir o modelo e, até mesmo, a existência de um órgão de inteligência no país.

“Ficou claro que, com o escritório do ódio, com inteligência paralela, com espionagem de opositores, não existia, nessa época, um Estado Democrático de Direito. É grave, é crime e precisa mudar. Temos que rever esse instrumento, ou precisamos de uma nova Abin, ou ela nem precisa existir”, enfatizou o parlamentar.

Fonte: Correio Braziliense

Foto: Divulgação

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